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13 de Maio de 1888 - Dia da Abolição da Escravatura

13 de Maio de 1888 - Dia da Abolição da Escravatura

e você quer um conteúdo sério sobre a abolição da escravatura, sem romantismo,  continue a ler esse texto, se não, na boa, esse texto não é pra você.

Me perdoe se pareceu agressivo mas o que pretendo com esse texto é trazer entendimento, causar empatia sobre nossa luta, a luta do meu povo e minha luta enquanto mulher preta, para um lugar ao sol. Portanto se você acha que é mais um mimimi e que não existe racismo no Brasil, esse texto definitivamente não é pra você

Se fizermos uma conta simples, pegamos 1888 e subtraímos por 2021, veremos que nós escravizados africanos tivemos apenas 133 anos de liberdade, para 350 anos de escravidão no território brasileiro. O que isso significa? Significa que todo esse período gerou e ainda gera consequências sociais. A abolição da escravatura é considerada hoje pela Biblioteca Nacional como o acontecimento histórico mais importante do Brasil após a Proclamação da Independência, em 1822. Depois de trazer cerca de 4,5 milhões de escravizados africanos, conquistando os títulos de Maior Território Escravagista e o de Último País das Américas a Abolir a Escravidão, após 350 anos de regime, em 13 de Maio de 1888, o Brasil deixa de ser um território que utiliza mão de obra escravizada.

Houve uma campanha popular, diversos líderes como Luiz Gama, Adelina, Maria Firmina dos Reis, entre outros, fizeram uma pressão popular que conduziu o Império ao abolicionismo e fez com que a Princesa Isabel assinasse a nossa tão sonhada Lei Áurea:

Art. 1°: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brazil.”;

Art. 2°: Revogam-se as disposições em contrário. ... Assim, sem mais nem menos, sem explicar os motivos, sem indenizar, sem amparar. Acabou, já era. Bola pra frente.


Marc Ferrez. Escravos na colheita de café, c. 1882. Vale do Paraíba, RJ. (Fonte Biblioteca Nacional)


Há escritores que pontuam o fato de que, a partir desse momento, houveram pessoas que imploraram para seus senhores a condição de continuar como escravos. Afinal, livres, fariam o que? Escravizado não tinha educação econômica, escravizado não tinha direito à educação nenhuma. Há abolicionistas que tentaram estudar, não foram aceitos por causa de seu tom de pele, conseguiu se libertar e libertar outros escravizados e só hoje, foi reconhecido pelos seus estudos. Consegue ver a animalização da nossa inteligência ai? Esse foi Luiz Gama, hoje reconhecido como estudioso de direito, abolicionista que não viu a abolição, morreu antes. O que mais incomoda nessa situação toda (Além de 350 anos de condição sub-humana de tortura de todos os jeitos possíveis, seja física, psicológica e etc.) é o fato de que na cultura brasileira a Princesa Isabel está estabelecida como alguém que se dispôs a ajudar os negros. Temos um imaginário social de que se a Princesa não tivesse assinado a Lei, estaríamos escravizados até hoje. Há escritores que consideram isso como um genocídio epistemológico, o que faz com que nossa história racional, intelectual e de luta seja apagada, e que nós só saibamos dos fatos ocorridos pela ótica branca da história. É importante ressaltar que o fato do Império abolir a escravidão foi resultado de muita insistência, perseverança, falas firmes e objetivas em prol de justiça, o que conhecemos e deslegitimamos no dia de hoje, a militância. Mas quando isso passou a ser pejorativo?
Exigir liberdade num momento de escravidão, foi militância. Dar o de comer e o de beber à quem não tinha, foi e ainda é militância. Exigir respeito e direitos iguais é a nossa militância de hoje em dia, vista à nossa condição passada. Mantemos nosso legado vivo, continuo. Olhando e amparando nosso povo, para que nossa liberdade seja real. Não uma farsa. Uma falsa democracia racial.

 

Voltando pra nossa abolicionista Princesa Isabel, hoje em dia esse fenômeno também reflete nas nossas relações. O comportamento de mulheres brancas ao fazerem o mínimo de humanidade que é: Não discriminar, não pré-julgar, não animalizar seres humanos, não inferiorizar pessoas; Se consideram muito, por fazerem o mínimo. Em que ponto da história o ato da Princesa Isabel ao assinar a Lei Áurea em 13 de Maio de 1888 se tornou de fato liberdade para o povo negro? E toda a árdua luta de antes? E todos os outros abolicionistas que sequer puderam estudar na mesma época? Não podemos considerar um ato heroico libertar os negros da escravidão, sem sequer um amparo, um suporte. Neste ponto vemos que o racismo não acabou, mudou de forma.  Afinal, é mais rentável economicamente ter os negros como consumidores de seus produtos (já que o Império nesse momento mantinha relações comerciais, o Brasil deixava de só exportar, mas também comercializar açúcar, café ... dentro do  território nacional) do que ter negros como propriedade, ter a obrigação de dar comida, terra, casa, na época era prejuízo. Hoje, vemos que Princesa Isabel assumiu um papel político econômico, não o ideal romântico de humanização dessas pessoas. E isso reflete socialmente no comportamento de muitas mulheres brancas, chamamos de Síndrome de Princesa Isabel. Aquela que faz tudo o que pode pelos negros, menos sair de suas costas.

 

Anônimo. Senhora na liteira com dois escravos, c. 1860. Salvador, BA.  (Fonte: Biblioteca Nacional)

 

Exploração é o segundo nome do Brasil, foi construído por exploração. E seria inocência demais da nossa parte achar que nossas atitudes não tem reflexos de fatos sociais passados. O Brasil se constituiu racista, proporcionou 350 anos de submissão para apenas 133 anos de liberdade civil. Parece que não, mas é pouquíssimo tempo. Nossos bisavós viviam numa sociedade completamente diferente da que temos hoje. Então, ao invés de assumir pra si a bandeira de Princesa Isabel, que ama e respeita a todos, que ajuda os negros sempre que pode, e que não é racista, entenda que, para além de ser ou não racista, nós hoje vivemos consequências de atos do passado. Ou seja, todos somos racistas!  Até mesmo pessoas negras estão sujeitas a reproduzir atitudes racistas, quem dirá as pessoas brancas. Por isso, ao invés de se preocupar em assumir a nomenclatura NÃO-RACISTA para o mundo, reveja suas atitudes racistas dentro de você, vá por mim, estarão lá. Nós não estamos desconectados com o passado. Tudo está em tudo.

Agora, o que me alegra nisso tudo, é que mesmo com apenas 133 anos de liberdade do meu povo, eu consegui contrariar todas as estatísticas impostas à mim. Rompi barreiras sociais e econômicas que foram impostas por mais de 300 anos para pessoas como eu, e consegui ser uma Mulher Preta Empreendedora. 

Dorotéia Mendes, 2021. Empreendedora Contábil  e Líder Educadora da Escola Rede Mulheres que Decidem

O que foi negado aos meus, eu conquistei e estou oferecendo para as próximas gerações: Dignidade, Educação, Liberdade Financeira, Auto-Estima. Conquistei diversos diplomas, muitas experiências profissionais, meu próprio negócio e me tornei Líder Educadora da Escola Rede Mulheres que Decidem.

Me diz se não é demais? Falar disso é cutucar uma casca de ferida pra sangrar e curar de vez. Falar desse tema é doloroso, é angustiante, mas somente observando o passado, é que teremos uma visão clara e objetiva para o futuro. Me alegra estar pelo caminho certo pela Liberdade do Povo Preto!

Por mais Mulheres Pretas Empreendedoras!

Poderosas!

Livres!



Fontes: Biblioteca Nacional; Brasil Escola; BBC BR; Planalto Gov Lei Nº 3.353, 13 de Maio de 1888. 

 

MULHERES PRETAS EMPREENDEDORAS

Mulheres que Decidem
Maria Dorotéia Mendes Oliveira
Maria Dorotéia Mendes Oliveira Seguir

Dorotéia Mendes Empreendedora Contábil que simplifica a contabilidade para a mulher empreendedora; Proprietária da Agere Contabilidade; Líder Educadora da Escola Rede Mulheres que Decidem; Embaixadora do projeto Mulheres Pretas Empreendedoras

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